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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

As principais correntes filosóficas e suas influências no Serviço Social: NEOTOMISMO

Não podemos afirmar que existe uma filosofia do Serviço Social, porém esta profissão foi fortemente influenciada por algumas correntes filosóficas que embasaram e embasam sua teoria e sua prática nos diferentes momentos históricos. Neste texto, vamos falar de algumas dessas correntes: o neotomismo, o positivismo, a fenomenologia e o materialismo histórico dialético, que estão presentes nos diferentes momentos da história do Serviço Social e suas influências na formação e na prática dos Assistentes Sociais.

O positivismo, a fenomenologia e o marxismo são as principais correntes teóricas do pensamento contemporâneo, que, juntamente ao neotomismo, servem como nosso guia, pois nos baseamos nos conceitos das mesmas em nossas intervenções e em nossas pesquisas.

A INFLUÊNCIA DO NEOTOMISMO NO SERVIÇO SOCIAL

A presença do neotomismo no Serviço Social marca profundamente a profissão desde a fundação da primeira escola de Serviço Social no Brasil. O Serviço Social, ao surgir atrelado ao projeto da reforma social da Igreja, a serviço de sua ideologia, carrega, além de sua prática, o seu ponto de vista teórico. Toda a visão de homem e de sociedade adotada na profissão se dará a partir da visão católica, tendo como sustentação filosófica o neotomismo.

Toda a visão de homem e de sociedade adotada na profissão se dará a partir da visão católica, tendo como sustentação filosófica o neotomismo.

A formação cristã do profissional em Serviço Social foi objeto de estudo de alguns encontros de Assistentes Sociais. Segundo Aguiar (1982), até 1967, quando é realizado o Seminário de Araxá, houve 14 convenções da Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social (ABESS), atual Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), onde o pano de fundo era a doutrina católica. Os encontros da ABESS comumente iniciavam-se com a celebração de uma missa e, por vezes, eram precedidos de um dia de recolhimento, aos moldes dos retiros espirituais promovidos pela Igreja a seus fiéis, tal era estreita a relação da profissão com a prática cristã católica. Na IV Convenção da ABESS, que ocorreu em São Paulo em 1954, o tema foi A formação cristã para o Serviço Social e a Metodologia de Ensino de Serviço Social de Grupo e Organização de Comunidade. Em 1959, em convenção realizada em Porto Alegre para discussão do currículo dos cursos de Serviço Social, foram reafirmadas como importantes para a formação integral do Assistente Social as disciplinas de Religião e Doutrina Social da Igreja. No discurso de encerramento deste evento foi salientada a missão dos Assistentes Sociais do seguinte modo: o cristianismo humanizante para a conquista da paz. E a exemplo de Maria, os assistentes sociais têm a tarefa de Anunciar a Redenção. (AGUIAR, 1982, p. 38). Em 1960, um novo encontro realizado em Fortaleza teve como tema Formação da Personalidade do Assistente Social em todos os Aspectos e os aspectos analisados foram: a formação psicológica, moral e espiritual.  

No que se refere ao aspecto espiritual, enfatizou-se que o Assistente Social deve buscar a perfeição e que esta busca da perfeição seja iluminada pelo espírito comunitário e pela doutrina do Corpo Místico de Cristo.

Fica evidente, portanto, a importância dos ideais cristãos na formação dos primeiros Assistentes Sociais e a forte presença da postura humanista com base na doutrina social da Igreja e no neotomismo.

Os princípios de dignidade da pessoa humana, do bem comum, explicitados por Santo Tomás de Aquino, predominaram no Serviço Social brasileiro até a década de 1960, e podemos afirmar que ela continua presente ainda hoje, através da ação de vários profissionais.

O QUE É O NEOTOMISMO?

O neotomismo é uma corrente filosófica surgida no século XIX com o objetivo de reviver a filosofia de Santo Tomás de Aquino, do século XIII, o tomismo, a fim de atender aos problemas contemporâneos. A condição de exploração e miséria em que vivem os operários na Europa do final do século XIX, decorrentes da industrialização e do desenvolvimento do capitalismo, leva a Igreja a se posicionar, pois este momento era visto por esta como de crise e decadência da moral e dos costumes cristãos. A Igreja vê, então, no ressurgimento das ideias de Tomás de Aquino o caminho para o enfrentamento desta realidade.

O QUE É O TOMISMO?

Se o neotomismo, que é a corrente que influencia o Serviço Social, é uma retomada do tomismo, então é preciso entender o que é o tomismo.

O Tomismo é a doutrina filosófica cristã elaborada pelo dominicano Tomás de Aquino, estudioso do filósofo grego Aristóteles. Tomás de Aquino dedicou-se ao esclarecimento das relações entre a verdade revelada e a filosofia, isto é, entre a fé e a razão. Segundo sua interpretação, tais conceitos não se chocam nem se confundem, mas são distintos e harmônicos.

Segundo Aguiar (1982), Santo Tomás parte da reflexão feita por Aristóteles e a reinterpreta à Tomás de Aquino dedicou-se ao esclarecimento das relações entre a verdade revelada e a filosofia, isto é, entre a fé e a razão, luz do cenário filosófico de sua época, marcado por questões como: as relações entre Deus e o mundo, fé e ciência, teologia e filosofia, conhecimento e realidade.

Para Santo Tomás, a primeira realidade a ser explicada deve ser Deus, que é a fonte de todos os seres. Após analisar a existência de Deus, analisa o homem, a pessoa humana, entendendo que a pessoa humana é composta de duas substâncias incompletas: alma e corpo. É da transformação destas duas substâncias em uma substância única que resulta o ser humano, distinto de qualquer outro ser. Este ser dotado de razão é capaz de escolha, de saber, de vontade.

Por ser inteligente, afirma Santo Tomás, a pessoa significa o que há de mais perfeito em todo o universo. (AGUIAR, 1982, p. 42). Esta perfeição se apresenta no aspecto físico e espiritual. Para Santo Tomás, o corpo humano é o mais perfeito, o mais funcional e o mais complexo e a pessoa humana tem também uma perfeição espiritual que se manifesta através da racionalidade. Esta racionalidade produz o princípio da consciência em si e da liberdade, que o distingue dos outros seres.

Portanto, a liberdade e a capacidade de escolha é também manifestação da inteligência do homem. Mas o homem é também dotado de vontade, o que lhe permite a escolha dos caminhos a percorrer na busca da virtude, do bem e no alcance do fim último, que é Deus.

O homem é, também, um ser social em decorrência da própria natureza humana. Como Aristóteles, Santo Tomás afirma que o homem é naturalmente um animal social e para desenvolver-se necessita viver em sociedade.

Para Santo Tomás a sociedade é a união dos homens com o propósito de efetuar algo comum (COOK apud AGUIAR, 1982, p. 43). toda forma de governo, desde que garanta os direitos da pessoa e o bem-estar da comunidade é boa e o Estado deve respeitar a Igreja, assim não existe conflito entre fé e razão. Toda forma de autoridade deriva de Deus, respeitá-la é respeitar a Deus. (SCIACCA apud AGUIAR, 1982, p. 43). Esta visão com relação à autoridade e ao Estado, reafirmada posteriormente no neotomismo, explica a posição inicial do Serviço Social brasileiro de não questionamento da ordem vigente, buscando sempre reformar a sociedade.

Quem foi Tomás de Aquino


Tomás de Aquino viveu de 1225 a 1274 e teve uma vida dedicada aos estudos, inicialmente sob a orientação de monges beneditinos e, posteriormente, em Paris sob a orientação de Alberto Magno. Era um estudioso metódico, que se empenhou em ordenar o saber teológico e moral acumulado na Idade Média, produzindo uma extensa obra com mais de sessenta títulos. Nasceu em 1225, no castelo de Roccasecca, na Campânia, da família feudal dos condes de Aquino. Era unido pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais da França, da Sicília e de Aragão. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino, passando a mocidade em Nápoles. Depois de ter estudado artes liberais, entrou na ordem dominicana, renunciando a tudo, menos à ciência. Dedicou-se ao estudo da teologia, tendo como mestre Alberto Magno, primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia. Em 1252, voltou à Universidade de Paris, onde ensinou até 1269. Em 1272, voltou a Nápoles, onde lecionou teologia. Dois anos depois, em 1274, viajando para tomar parte no Concílio de Lião 2, por ordem de Gregório X, faleceu no mosteiro de Fossanova, entre Nápoles e Roma, com apenas 49 anos de idade.


O Neotomismo e o Serviço Social

A repercussão do neotomismo na teoria e na prática profissional dos Assistentes Sociais pode ser percebida até hoje. A idealização de um projeto societário que contemple as duas dimensões do homem: o corpo e a alma, e a visão da sociedade como a instância na qual o homem pode completar-se e realizar-se como pessoa humana leva os Assistentes Socais a recusa, como sugeria a Igreja Católica, do comunismo e do liberalismo.

O comunismo é interpretado, pelos primeiros Assistentes Sociais como uma teoria social refutável porque postula um projeto societário erigido por uma compreensão materialista do homem e era tido como uma doutrina totalitária com princípios dissonantes com o conceito de pessoa humana.

O liberalismo, por sua vez, também era incompatibilidade com a natureza humana, pois era tido como uma doutrina individualista.

Nesse contexto, o trabalho dos primeiros assistentes sociais dirigia-se, sobretudo, à classe trabalhadora, porém na perspectiva da conciliação das classes sociais. A visão de homem do Serviço Social era a pessoa humana, portadora de valor soberano, criado por Deus, único ser no universo capaz de se aproximar da perfeição.

O objetivo do Serviço Social era moldar este homem, integrá-lo à sociedade, aos valores, a moral e aos costumes de uma sociedade cristã, a fim de que ele alcançasse a perfectibilidade. Somente na década de 1960 estas ideias vêm a ser questionadas, porém ainda hoje pode ser observada a presença de princípios cristãos no discurso de profissionais e alunos de Serviço Social.


Texto adaptado de: Fundamentos Filosóficos para o Serviço Social. Sônia Maria de Almeida Figueira

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